Na pele do adepto os Amora FC Supporters entrevistam o sócios do nosso Amor[a] com o propósito de ficar a conhecer um pouco mais do que é a "mística Amorense" Hoje entrevistamos o arquitecto José Pequeno de 43 anos sócio nº 172 do Amora FC e responsável pela arquitectura do centro de treinos do Serrado e novo estádio da Medideira.
José, como começou esta sua paixão pelo Amora FC?
R: Não me recordo do começo. É como se tivesse nascido comigo. Foi-me transmitido pelo meu Pai, que me levava a ver os jogos desde sempre, em casa e fora. Tenho ainda memória, em forma de flashes, de alguns jogos da 1a divisão, era muito novo. Lembro-me de estarmos a vencer fora o Benfica, com um golo com cambalhota (foi o Caio) na primeira vez que entrei no antigo Estádio da Luz, e de um golo do José Rafael em Alvalade. Nesse ano de 82/83, a capa da caderneta de cromos era uma foto desse Sporting-Amora. Mas recordo-me sobretudo de muitas histórias das figuras míticas do passado, que o meu Pai me contava. E eu sonhava com isso. Não me recordo de mim sem este sentimento pelo Amora. Mas recordo-me bem dos tempos em que vivi mais afastado, seja pela distância física ou por outras contingências.
Ainda se lembra de como no passado a cidade vivia o clube?
R: Lembro-me dos relatos da nossa terra ficar parcialmente "deserta" no dia em que jogámos no Restelo, na última jornada da nossa 1a época na 1a divisão. O golo da vitória, nos instantes finais, garantiu-nos a permanência entre os maiores. Creio que era único, na época, um clube de uma Aldeia estar a este nível. É revelador do carácter das suas gentes. Das nossas gentes. No dia seguinte, na capa d'A Bola, lá estava a foto de toda a equipa do Amora a festejar o golo da época dentro da baliza. A ligação entre clube e a terra era enorme, não tinha sido minimamente "diluída" pelo crescimento populacional que se seguiria.
Olhando para os finais de anos 70, e 80 o que falta hoje em dia ao nosso clube para mobilizar mais adeptos?
R: São épocas totalmente diferentes, tudo mudou. A nossa cidade, na altura não era sequer uma vila. Entretanto, e aqui tão perto da capital, a população exponenciou. Hoje somos mais de 50.000 na cidade, mais de 160.000 no concelho. O potencial é enorme. Penso que essa mobilização está a ser feita e será cada vez mais evidente. O caminho faz-se caminhando e começa precisamente pelas bases que estão a ser preparadas para o futuro. É natural que a face mais visível e mediática seja sempre o momento presente da equipa principal senior masculina, mas se olharmos em volta é absolutamente notável todo o trabalho que tem vindo a ser feito ao nível da formação, das camadas jovens e do futebol feminino, e consequente crescimento em número de atletas. Criar uma estrutura profissional ampla (no clube) a partir do zero, para poder dar suporte compatível na organização funcional, administrativa e operacional diária, não é uma tarefa fácil. Requer meios. E requer dedicação, tempo de evolução e crescimento, recursos humanos afectos a tempo inteiro e, por certo, investimento proporcional. O Amora tem a sorte de ter um Presidente dedicado a 200%, mas eu sinto que por vezes precisa de (mais) apoio executante/operacional a seu lado. O Amora Futebol Clube tem hoje um papel social muito importante, o que também justifica indiscutivel e justamente os apoios de que tem sido beneficiário, sobretudo por parte da autarquia. Hoje respira-se Amora na cidade e no concelho. As acções de proximidade (e têm sido promovidas algumas) são igualmente fundamentais no sentido de desenvolver essa relação. E eu acredito que o rumo é exactamente este.
Muitos Amorenses relatam factos do passado onde após os jogos do Amora estes eram temas de conversa no comercio local, consegue nos descrever como vivia e vive atualmente os pós jogos do nosso clube?
R: Depende sempre do resultado. A disposição é diferente. Quando era mais novo e o Amora perdia ia directo para casa e enfiava-me na cama sem jantar, até a neura desanuviar. Hoje não me posso dar a esses luxos. Mas tenho dois momentos separados por quase 15 anos, que me marcaram mais, última jornada de campeonatos. Em ambas correu mal para nós: Penafiel 1993 e Almancil 2007. E em ambas uma vitória teria sido suficiente (para nos mantermos na 2a Divisão de Honra ou para subirmos da 3a Divisão, respectivamente). Em qualquer dos casos invasão total de adeptos amorenses. Em nenhum dos jogos houve golos. Em Penafiel até falhámos um penalty. Manteve-se o Campomaiorense que iniciaria aí a sua ascensão posterior à 1a Divisão. Aí o meu pós-jogo foi continuar 1 hora sentado no mesmo lugar a olhar para o relvado deserto e as montanhas envolventes, acompanhado do meu Pai e do meu tio Jaime Marçal. Lembro-me bem que foi a última vez que chorei de tristeza pelo Amora. A partir daí só chorei de alegria. Nos momentos de tristeza consegui sempre aguentar-me estoicamente. Até em Almancil, onde se dava a situação sui generis do nosso concorrente pela subida (que era o Juventude de Évora) folgar nessa última jornada. Era mesmo "só" marcar um golinho e despachar o assunto. Estava a viver em Guimarães na altura. Acordei cedo e pus-me a caminho, 600 kms para Sul. Cheguei já o estádio estava "pintado" de azul. Durante o jogo não me recordo de uma única oportunidade de golo. O meu pós-jogo foram mais 600 kms silenciosos de regresso ao Minho. Moral da história: quem quiser viver os momentos bons tem que estar sempre preparado para viver e ultrapassar todos os outros, mesmo os mais difíceis. Penso que só assim conseguiremos dar real valor à concretização das conquistas que se aproximam.
Sabendo que lecionou na cidade de Guimarães, onde a paixão pelo Clube da terra não é comparável a mais nenhuma outra cidade, acha que o nosso Amora pode vir a mobilizar a cidade inteira, há semelhanças atualmente com aquilo que viveu em Guimarães?
R: Guimarães é uma cidade especial. Vivi 5 anos no Minho, o meu filho nasceu lá. É orgulhosamente vitoriano, para além de amorense. E eu gosto desse apego e da valorização das raízes. Em Guimarães isso é cultivado desde cedo, talvez com o embalo do berço da nação. Mas a verdade é que ao domingo é ver na rua, desde cedo, velhos, novos, mulheres, homens, tudo equipado a rigor, a cidade transforma-se e o orgulho de pertença e identidade (com toda a variedade que isso inclui e representa) reune-se em torno de uma paixão comum. Lá, não há cá clubes grandes. Grande é o Vitória. Sim, esse é o nosso caminho também. Se olharmos para trás no tempo, recordo que ainda os 3 grandes não tinham as suas academias em Alcochete, Seixal e Olival, e já o Vitória tinha as mais completas infraestruras desportivas do país - eu quando as vi, no início dos anos 90, não queria acreditar -, chamando e dando condições a todos os seus jovens e atletas. Passaram 25 ou 30 anos e os resultados são visíveis na relação entre clube e cidade. Temos muito a percorrer, mas o tempo de uma geração é mais que suficiente para mudarmos tudo para melhor. E isso está a ser feito. Ainda não se vê, mas já se vai sentindo.
Na sua opinião o que diferencia os adeptos a Amorenses dos restantes adeptos dos outros clubes da nossa série do campeonato de Portugal?
R: Falamos de um clube quase centenário. O peso da História é fundamental, assim como a herança do passado. Temos muitos atrás de nós e nunca estaremos sós. Acho que se chama "mística". Ou se tem ou não se tem. O Amora tem! Alguns outros na nossa série também o têm, naturalmente. Inicialmente por questões profissionais, mas agora também já sentimentais (porque o desporto como verdadeiramente deve ser na sua essência une as pessoas, ao invés de as afastar) tenho estado ligado também com muito gosto a um outro clube fantástico da nossa série, já centenário, e o "brilho" está lá. De facto, no Amora sabemos de onde vimos, sabemos bem para onde queremos ir, e para onde vamos. Os adeptos reflectem isso, porque o clube são as pessoas. A exigência que se sente é o reflexo da expectativa e da ambição que todos temos. Mas há um caminho a percorrer, que não nasce feito, e está a ser percorrido com personalidade.
Quando falamos que somos o clube que mais adeptos leva em jogos fora na nossa serie, isto é verdade, qual a sua percepção e o que se sente num jogo fora de portas?
R: Sinto que estamos ainda mais unidos. Quando estamos na Medideira estamos obviamente na nossa zona de conforto, mas quando estamos fora é quando nos unimos mais, é um sentimento ainda mais forte de família, de grande família. Somos muitos mas quase todos nos conhecemos. Tenho grandes memórias, para sempre, dos jogos fora de portas. O melhor golo que vi do Amora foi marcado fora. A equipa em questão nem é das mais recordadas do Amora, a época não foi brilhante, e nesse dia até perdemos. Foi na Tapadinha, com o Atlético, e ainda não estavam decorridos 10 minutos e já estávamos a ganhar, com um golo marcado com um pontapé de bicicleta, perfeito, de fora da área, pelo Cafú (que viria a ser campeão nacional pelo Boavista alguns anos mais tarde).
Até das minhas "ausências" tenho memórias. Vivi um ano em Timor Leste, entre 2001 e 2002. Andava 9 ou 10 horas à frente no fuso horário e as minhas madrugadas de domingo para segunda eram sempre a tentar apanhar o andamento dos jogos do Amora. Foi assim que "vivi" a nossa última vitória no Bravo. Depois de estarmos a perder 2-0 lá fui eu para a cama (neste caso até tinha desculpa, pela hora), mas fui acordado por um telefonema da minha mãe a dizer-me que afinal tinha havido uma reviravolta para 2-3 e o Amora tinha vencido. Obviamente que já não dormi mais nessa noite.
Abordando o tema Serrado e Estádio da Medideira o que sente por estar ligado a este projecto sendo o Amora o seu clube de coração, que diferença existe para outros projectos identicos?
R: Sinto-me um privilegiado por isso! Mas sobretudo pela confiança total e pela amizade genuína que sinto da parte dos sócios e adeptos do Amora. Fazer o estádio do meu próprio clube é, no plano pessoal, uma sensação única e indescritível. E, na verdade, rara. Mesmo nos casos em que tal seria mais provável, o Dragão foi desenhado por um arquitecto sportinguista, Alvalade por um arquitecto benfiquista, e a Luz por um arquitecto australiano. É certo que neste nosso caso tem sido uma maratona que dura há mais de 15 anos (iniciámos o desenvolvimento do projecto do Estádio em 2003), mas estamos hoje mais perto que nunca, a escassos meses do expectável e desejado arranque da Medideira. Entretanto vamos concluir o Serrado para inaugurar no aniversário, outro sonho tornado realidade e que será absolutamente crucial no desenvolvimento e crescimento do Amora.
Em que se inspirou para a definição desta linhas de arquitectura do Serrado e Medideira?
R: Não há projectos iguais. Cada caso deve reflectir um propósito concreto e uma identidade única, fiel às raízes, às premissas e ao enquadramento específico de cada obra. No caso da Medideira e do Serrado, até pela escassa distância de 200 metros que os separa, fazia sentido uma coerência de imagem entre as duas obras, pelo que seguimos princípios de desenho similares, salvaguardadas as respectivas escalas. Fez-nos sentido que funcionassem como um único equipamento interligado pelo "corredor azul", ganhando impacto, dimensão e funcionalidade. Independentemente disso, um localiza-se no seio de um parque urbano e tínhamos a responsabilidade de o integrar e "diluir" nesse contexto natural. Já o outro está nas margens da Baía, o ex-libris do concelho, num enquadramento paisagístico de eleição. Em ambos os casos a estrutura assume um papel de relevo na arquitectura, propositadamente. A Medideira é inspirada no casco das embarcações e os pórticos estruturais são exteriores precisamente para destacar essa relação. A construção naval sempre foi uma das principais actividades económicas do concelho. A Baía/Rio Judeu, com condições ideais ao efeito, chegou a ter 16 estaleiros navais em funcionamento, muitos deles em Amora. A estrutura das embarcações é uma estrutura simbólica, com imagem forte e marcante, e achámos que valia a pena explorá-la e potenciá-la fielmente às nossas próprias raízes culturais. E assim foi. Em conversa com o meu amigo Fernando Venâncio, da Venamar, ele explicou-me que quando a embarcação é em madeira estas "costelas" se denominam "cavernas". Mas quando a embarcação é em aço, como é o nosso caso, chamam-se "balizas". E eu gosto de imaginar que a Medideira vai ser o Estádio com mais balizas do país.
É importante referir um aspecto relativamente ao EMM Estádio Municipal da Medideira. Sendo certo que um equipamento desta natureza e envergadura proporcionará todas as condições necessárias a um clube que represente a cidade, o concelho e a região ao mais alto nível nacional (obviamente na 1a divisão), a verdade é que esta não é, nem pode ser, a justificação principal deste investimento público. O que em primeira instância justifica a prioridade estratégica deste investimento é a oportunidade única de transformar toda uma cidade, desenvolvendo-a urbanisticamente na sua relação com o rio. O EMM está integrado num plano de pormenor em desenvolvimento para toda a frente ribeirinha, terá um papel central no planeamento urbanístico da cidade e será o motor de uma das maiores transformações jamais vistas em cidades com a dimensão que Amora tem. É, muito mais que futebol ou desporto, a possibilidade de desenvolvimento económico, turístico e social. Nesse sentido, a responsabilidade que teremos no nosso Amora é ainda maior. Mas estaremos todos à altura!
Como vê o Amora daqui a 10 anos?
R: Com todas as obras concretizadas, com a continuação do trabalho que está a ser desenvolvido pela direcção e pelos amorenses a nível de organização e de infraestruturas, num concelho em desenvolvimento turístico e crescimento económico, objectivamente o Amora Futebol Clube terá condições absolutamente únicas no panorama nacional. Condições como nunca teve para ser dos maiores a nível nacional, seguramente o maior da margem sul (com o devido respeito pelos outros históricos). É exactamente assim que eu vejo o Amora daqui por 10 anos.
Hoje em dia temos abordado muito na nossa página a importancia do gosto pelo Amora passar de geração em geração, qual a sua opinião em relação a este sentimento, e de que forma passa este seu gosto às novas gerações?
R: Eu entendo que o passagem testemunho, de geração em geração, é fundamental. Quem conhece por dentro a realidade e a história do clube sabe que é precisamente assim. Isso é até visível em entrevistas anteriores por vós realizadas. E é sempre um orgulho ver que é assim. Parte da mística, do carisma e da história é exactamente assim que sobrevive.
Como em tudo na vida, há altos e baixos. Eu na resposta à primeira questão que colocaram falei de "outras contingências" que a dada altura me afastaram um pouco mais. Referia-me à fase inicial das pessoas que me transmitiram este sentimento pelo Amora já não estarem connosco fisicamente. Em pouco tempo de diferença deixei de poder ir ao futebol acompanhado pelo meu Pai e pelo meu tio Jaime. Na Medideira sentávamo-nos sempre todos no mesmo local, no mesmo degrau, mesmo sem lugar marcado, a escassos metros do também jovem Paulo Cunha Cavaco que me está a fazer esta entrevista e que também acompanhava sempre os seus avós. Estive vários meses sem ir ver o Amora, nem em casa. Quando regressei custava-me voltar aos mesmos lugares, sentia-os demasiadamente vazios, mesmo com o alvoroço do jogo. Durante anos, no decorrer dos jogos, deambulava só pela Medideira. Ora atrás das balizas, ora no peão, mas nunca na bancada. Alguns dos meus amigos de sempre terão achado estranho esta "distância", pois nunca partilhei esta história nem este sentimento. Foi, de facto, difícil "regressar" à nossa casa. Hoje em dia já vou novamente para a bancada, mas nunca para aquele lugar.
Respondendo à questão, em boa verdade nem sempre estava só atrás da baliza. Muitas das vezes estava já com o meu filho, mesmo quando levava os carrinhos de brincar. Hoje continuo a levá-lo sempre que queira ir comigo. Também o levo à obra nos fins de semana. E é assim que lhe transmito, simplesmente fazendo do Amora parte da nossa vida.
Sendo o José um seguidor da nossa página, na sua opinião como vê o projecto Amora FC Supporters e qual a importancia na vida do clube?
R: Vejo o vosso trabalho com muito respeito. É um trabalho excepcional de divulgação e motivação. Sempre pela positiva e de forma construtiva, como acredito que deve ser. Ler entrevistas como a do Gonçalo Grilo, que acredito convictamente será um dia o capitão da nossa equipa principal, na 1a divisão, no nosso novo Estádio, num estádio cheio como o próprio imagina, faz-me ter a certeza de que há muita gente a lutar e a trabalhar pelos mesmos sonhos, e que o futuro estará assegurado.
Como sócio e adepto Amorense qual o seu sonho?
R: O meu sonho, neste momento, é inaugurar o novo Estádio Municipal da Medideira. E que o Joca possa cumprir a promessa de marcar o primeiro golo oficial no novo estádio. E ver o Amora de regresso ao seu lugar entre os maiores, em todos os escalões. E ver o Estádio cheio com a cidade a seu lado. Só assim faz sentido.
Quer deixar uma mesagem a todos os socios e adeptos do nosso Amora ?
R: Quero! 2020 vai ser um dos anos mais importantes da vida do Amora. Mantenham-se unidos! Fortes! Solidários! E juntos vamos alcançar os nossos objectivos




